Há uma frase atribuída a um teólogo inglês do século XIX: “O pessimista queixa-se do vento, o otimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas”. Se considerarmos o momento histórico que nossa categoria atravessa, ela é muito pertinente, pois nos permite refletir sobre nossas ações acerca da atual luta sindical.

Em nossa instituição, há aquele grupo de policiais cuja característica é a descrença, a apatia, a falta de vitalidade para lutar. Compreensível, convenhamos! Depois de vários anos de trabalho e promessas não cumpridas, resta-lhes a resignação e não lhes faltam queixas.

Por outro lado, existem aqueles que demonstram algum vigor. Torcem efusivamente, mas não se envolvem na luta.  É uma manifestação de apoio que ocorre a distância. Eles têm um local predileto para permanecer: o muro. Dele, conseguem observar mais e melhor os rumos do movimento paredista, além de esperarem dias melhores sem que lhes perturbem. Frise-se: meramente observam a banda passar. Não são indecisos, hesitantes ou irresolutos. Longe disso! São indivíduos que, de maneira deliberada, não querem se posicionar. Optam pela odiosa astúcia de acender, a um só tempo, diversas velas: para deuses, demônios, delegados ou quem lhes convier. Assim, sempre obtêm vantagens, o movimento sendo exitoso ou não. Para eles, o muro, em vez de mera obra de alvenaria que separa terrenos contíguos, é a expressão maior da conveniência. De lá, alcança-se as benesses e livra-se da guilhotina.

Tem-se, também, o conjunto de policiais para os quais a denominação realista cabe perfeitamente (no sentido dado pelo autor acima citado). Eles têm conseguido, ao custo de muita dor e suor, ajustar a velas de nossa embarcação (leia-se: Sinpol).

Diante disso, companheiros, eliminemos, de uma vez por todas, a prática de se esconder, de se utilizar do manto do anonimato ou “jogar nas costas” do sindicato o ônus da luta. É muito comum ouvirmos frases como “Se eu contrariar o delegado, ele vai me perseguir” ou “Eu me dou bem com o delegado, logo não posso (consigo) dizer-lhe um não”. Companheiros, exorcizem essa prática. Não vejam os delegados como amigos ou inimigos. Apenas como servidores que estão do outro lado da linha. Lembrem-se de que fazemos parte de uma categoria marcada pela cisão: de um lado, delegado; de outro, agentes, comissários, escrivães etc. Portanto, aqueles que julgam que se “dão” bem com o “Bel(a)” – como são carinhosamente chamados – estão diante de uma ilusão. Estão, sim, envolvidos numa relação parasitária, onde apenas um lado beneficia-se. Basta um mísero não, para a “parceria” desfazer-se. Quanto à dúvida se vai ou não “contrariar” um delegado, pese se é mais importante sua dignidade (valorização pessoal e profissional) ou uma transferência para outra delegacia.

Nós devemos, individualmente, assumir o protagonismo da luta, o que significa exibir o rosto, assumir a responsabilidade, afirmar que está na luta; enfim, POSICIONAR-SE. Não há mais tempo para conjugar os verbos queixar-se e esperar. Chegou a hora de decidir o que queremos: salário condizente com nossa atividade laboral ou migalhas temporárias (chefia, PJES, viatura para uso pessoal etc.).

Por fim, não se deve esquecer que Áureo não é o Messias, que possui poderes sobrenaturais para interceder, junto ao governo do Estado, a nosso favor. Pelo contrário, ele é apenas realista, ou seja, ajusta a velas.

 

EWERTON CUNHA

AGENTE DE POLÍCIA

LICENCIADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

 

 

 

Discussão1 Comentário

  1. Pois é Ewerton! Sou um grande admirador de seus diálogos, suas opiniões! Esta frase que cita: “O pessimista queixa-se do vento, o otimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas”, se encaixa muito bem em com nossa realidade. Em toda embarcação sempre haverá pessimistas, otimistas e realistas, embora acredito que nosso pensamento é “mutante”, que ao longo de nossas experiências e da experiência nos passada por outras pessoas vamos amadurecendo, aos poucos, nossas próprias ideias e convicções. Acredito que muitos desses pessimistas e otimistas, estes que não se posicionaram, continuaram assim “observando a banda passar”, pois não há o que se falar em dignidade para quem não nunca se preocupou com o significado da palavra, para quem nunca agiu com ética ou moralidade. Estes continuaram ali, onde bem os convém, assim como nós continuaremos aqui “ajustando as velas”!

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