Por J. Maria – Policial Civil –

A expressão tem sua origem na Bíblia. Como forma de purificação de sua nação, os hebreus organizavam um ato religioso que contava com a participação de dois bodes: um sacrificado e o outro transformado em bode expiatório. Sua função era carregar todos os pecados da comunidade. O Pacto pela Vida e o bode expiatório. Sempre pregando um PPV robusto e cheio de vida, a despeito das mortes mês a mês dizerem “não”, o governo do Estado acaba de achar um culpado pela falência de sua política de segurança pública: é a Polícia Civil o bode expiatório. É mole ou quer mais?

Golpe, é isso? Jornais do Estado têm publicado à exaustão notas de setores do governo (apócrifas) atribuindo à PC o malogro pela política de segurança pública. Da comodidade do ambiente em que vivem, e já contemplados com ganhos reais em seus salários polpudos (aqui não tem crise), esses anônimos se investem de autoridade para criticar uma instituição cujos integrantes fazem jus (aqui sim) a cada centavo auferido em contracheque. Falam em greve branca, boicote, motivação política e outros disparates. Motivação política?! Sendo o PSB vassalo do PT, onde estaria essa motivação? Há pouco tempo na capital do Piauí e Pernambuco selou acordo contra um pretenso “golpe” da sociedade brasileira no governo de dona Dilma, eivado de uma corrupção que não tem precedente no sombrio e lamentável catálogo dos crimes contra uma nação. Existe (sim) uma motivação política, mas do povo e contra esse socialismo de fachada visto aqui e ali, uns com direito a champanhe francês e vodka russa, ao passo que o servidor policial vive espremido para pagar sua simples conta de água, que já subiu 12,16%, a ele sendo negado até o INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) de 8,34% para reposição de perdas com a inflação. Sem a reposição de perdas por um ou dois anos, e logo o servidor policial vai estar trabalhando pelo pão, ainda tendo que dar sangue, suor e lágrimas. É mandado a uma guerra sem apetrechos ante um inimigo fortalecido e preparado. O Governo se justificando dizendo que “era assim e ninguém reclamava”, ou “essa alegada falta de estrutura não passa de pretexto para aumento”. Uma coisa não exclui a outra e sem as duas não se faz polícia. Se um dia houve uma polícia que não reclamava, alimentada na esperança de reconhecimento futuro prometido, houve também no passado o regime escravocrata. Ele caiu. Por que fazer mais e dentro de tão estreito limite? Para assegurar o caviar de um grupelho, o policial vendo sua sardinha escorregar pelas mãos, e não é isso? “Ou se restaure a moralidade ou nos locupletemos todos”, Barão de Itararé. Frase que merece uma boa reflexão.

Crônica de uma morte anunciada (García Márquez).

Um paciente moribundo e com diagnóstico de morte, vaticinado pela doutora Ana Paula Portella, do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Criminalidade da UFPE, ela integrante da equipe do professor José Luiz Ratton, o “Pai do PPV”. Desde março de 2014 que o pacto agoniza. Comparando-se os sete primeiros meses de 2014 com os de 2015, teve-se um aumento de 10,8%. E por que tanta celeuma em torno do Pjes? Muito se tem discutido a exploração verificada em alguns grupos da sociedade nos dias de hoje, com sua extensão para o serviço público, servidores com excesso de trabalho e de horas, até espoliado de direitos constitucionais. O Pjes foi criado pelo decreto nº 21.858/1999. “Em que pese ao esforço já despendido, necessário se faz um contingente maior de pessoal para emprestar suporte adequado aos planos da segurança”, é o que diz em seu prólogo. O resto do decreto e até esse “suporte adequado” não passa de floreios para, verdadeiramente, mascarar àquela exploração rotulada apropriadamente de escravidão branca. Pelo Direito Brasileiro há limitação da prática de horas extras, não podendo exceder a duas horas após a jornada de trabalho, com pagamento de valor adicional nunca inferior a 50% da hora normal, esse valor sendo de 100% para domingos e feriados. A insatisfação é generalizada. Início do ano e uma greve da PM somente não foi deflagrada por que o Governo correu com as mãos na cabeça (ai meu Deus!) e cheio de projetos para ALEPE, advindo promoções para mais de 5.500 soldados e 1.500 cabos, ainda alterando lei que dispõe sobre a carreira de praças e o quadro de oficiais. Como disse o próprio Comandante-Geral da PM, “houve sim por parte do governo um reconhecimento e com ganhos salariais para a corporação”. Aqui, o Chefe de Polícia faz silêncio absoluto. Nem sequer um centavo para a PC. Depois eles vêm com “não se pode destoar”, ou “é de lamentar a postura dos policiais civis”, ou que “é preciso unir forças”. Há oito anos que as polícias vêm ouvindo esses discursinhos, até quando não existia crise. O saco já encheu.

Abandonada se encontra a PC. Sem estrutura. Sem efetivo. Sem apetrechos. Sem salários dignos. É recebendo salário africano tendo de prestar serviço europeu. O governo não quer nada! O Tribunal de Justiça (TJ) tem manifestado apoio à causa da instituição. Em declaração de voto reconheceu a “situação de penúria ante o seu quadro reduzido” e o “descaso do Estado com os seus serviços públicos”. Isso é muito. Os policiais vêm se mobilizando por todo o Estado ganhando o respeito e o respaldo da população. Isso é tudo. Vai ver é essa crise ético-político-econômica que tem devastado o país e igualmente por irresponsabilidade da Polícia Civil. “Tudo é possível pela ótica da psicologia dos vencidos”, Voltaire.

J. Maria – Policia Civil

Discussão4 Comentários

  1. O companheiro J. Maria disse tudo e muito mais…
    Falou de certo “soldado” que resolveu comandar,
    que resolveu dar ordens… Mas, as ordens de coman-
    do – aqui – são falsas, são traiçoeiras, são pífias, são
    fracas… Mas olha companheiro, presta atenção: não
    temos comando, estamos órfãos de liderança. Sim,
    ela existe no papel, no preto no branco… Todavia,
    o front está vazio, o posto está abandonado,
    descarado…. Ele resolveu se esconder atrás da moita…
    Por quê? Porque ele pensou: ora, tenho um super salário,
    grande influência, lidero, eu sou o cara. Mas, e os soldados
    “que seriam seus?”, que precisam de dignidade, de alimento,
    de salário justo, de infraestrutura para poder trabalhar, que
    está aos trancos e barrancos com suas famílias. Haaaaaa….
    Estes que se arrom…., estes que vão para a pqp…. , que se
    lasq…., que morram, que se matém… Ora, eu estou de barriga
    cheia, prestigiado, bem alimentado, ganho de duas entidades
    federativas, vão pra lá…
    Sérgio Teotônio é comissário de polícia civil.

Deixe seu comentário